Bandeiras paulistas

Luiz Gê, grande autor de quadrinhos, criou há 30 anos (!) uma das mais paulistanas histórias já desenhadas por estas terras.

Madrugada em Sampa, um casal aguarda um semáforo abrir. Quando a paciência se esgota, o rapaz resolve avançar e … o guia do monumento das bandeiras do Ibirapuera está a sua frente, braço erguido, pedindo para que o motorista aguarde mais um pouco, pois todo o monumento está passando pela transversal, incluindo o barco. O casal, atônito, quer sair do lugar o quanto antes, mas é atropelado pelo Borba Gato da av. Santo Amaro.

Os monumentos do Ibirapuera e do Borba são bastante estilizados, cada qual a seu modo. O do Brecheret é sensual, as formas emergem da matéria única e se distinguem uma da outra, cavalos, barcos, cordas, humanos, formas e origens orgânicas: cordas de cânhamo, barco de tronco de árvore. O de Júlio Guerra é um bandeirante de vários materiais, pedra, aço e ladrilho de mármore, de linhas retas. Tudo nele parece que foi montado por partes, seu bacamarte, suas botas, sua casaca, seu olhar duro, seu jeitão de transformer.

Monumentos têm o propósito de servirem a alguma exaltação, perpetuam em suas formas algum grande gesto, alguma pose expressiva, uma alegoria histórica, um símbolo: a estátua eqüestre do Caxias, a escultura de Tomie na 23 de Maio, a de Fernão Dias (por acaso, sogro do Borba Gato) no Museu Paulista, todos estes e muitos outros, incluindo a obra das Bandeiras de Brecheret, possuem algo épico, heróico, de exaltação mesmo.

E o Borba? Exalta o que? O próprio Manoel de Borba Gato, marido de Maria Leite, esta filha de Dias Paes Leme? A estátua parece fugir da função de enaltecer algo ou alguém. Não é pose para a posteridade, algum gesto nobre, olhar de orgulho. Simplesmente está ali, no meio da praça, poderia ser qualquer bandeirante, qualquer habitante do século XVII. Seria um anônimo, como são as figuras do Brecheret. Contudo, estes são anônimos para atingirem a abstração, para serem uma representação de um momento histórico, independente das polêmicas que há. O Borba tem aparência de anônimo mas tem um rótulo, o de ser a representação do… Borba.

Não cabe o adjetivo “feio” e nem “tosco”, isto é previsível demais: o melhor para o “Borba” é a palavra “intrigante”. O que o autor da obra imaginou estar fazendo? Em sua presença, há um certo torpor que nos invade.

A escultura do Borba deixou de ser a homenagem ao Manoel Borba Gato para ser o “Borba Gato”, aquela exaltação (sim, ele enaltece algo) ao kitsch, ao pesadelo estético, à robustez e ao exagero. O “Borba” nada tem a ver com a figura histórica do Borba.

Sobre insilicium

Tenho formação em Exatas, basicamente em Física. Atuo no ramo de TI e busco trabalhar com ciência. Não dispenso a arte, seja visual ou sonora.

Publicado em julho 9, 2008, em artes plásticas e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. O Borba ultrapassou o conceito de artes plásticas.

  2. Quem empurra um barco com essa pooooooooooooooose?
    Dá para acreditar que esses caras estavam trabalhando?
    Parece O Poderoso Chefão III, onde um personagem fazia nhoque de terno, com a pontinha dos dedos, na maior elegância.

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