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Camelos e cordas

“E Jesus disse aos seus discípulos: Em verdade vos digo, que um rico dificultosamente entrará no reino dos céus.
Ainda vos digo mais: Que mais fácil é passar um camelo pelo fundo duma agulha, do que entrar um rico no reino dos céus.”
(Mateus, cap. 19, vv 23-24)


Isto é bem surreal: um camelo passar pelo fundo da agulha … Parábolas sobre sementes em solos inférteis, lírios dos campos e filhos pródigos são aceitáveis: afinal, elas trabalham com idéias do cotidiano, pelo menos do cotidiano da Palestina do início da era cristã. Mas duvido que houvesse camelos passando pelo fundo da agulha nesta Palestina … ou havia?


Alguns escritores, como Anthony Burgess, comentam que, em vez de um camelo, o nazareno falou em “corda”. Não se pode esquecer a origem grega destas palavras: “kamelon” (camelo) e “kamilon” (corda). A pronúncia é muito próxima. A idéia de uma corda passando pelo fundo da agulha parece mais plausível. Contudo, diversos outros estudiosos comentam que nos evangelhos escritos em grego mais confiáveis a palavra certa é “camelo” mesmo. Até citam uma frase do Talmud, livro judaico de tradições orais, que diz a respeito da impossibilidade de um elefante passar em um fundo da agulha.


Tanto o camelo como a corda funcionam para a idéia que Jesus quer passar para os seus discípulos: a de um certo despojamento de bens para entrar no reino dos céus.


Aliás, há uma outra hipótese a respeito da metáfora utilizada: havia em Jerusalém uma passagem denominada “Buraco da Agulha”. Desconheço se há comprovação histórica ou arqueológica deste local. Esta passagem ou portal era de tal forma estreita que não permitia a passagem de camelos carregados, a não ser que estes tivessem suas cargas retiradas (despojadas) e eles atravessassem o portal meio agachados (na humildade, talvez?).

Quem foi a primeira mulher de Adão?

Não deve ser a resposta tradicional: a primeira história do Gênesis é uma das três mais conhecidas do Ocidente (as outras duas são a do nazareno e a do kryptoniano) e uma pergunta desta soa retórica.

Lilith, como Adão, foi feita de argila, além de sangue e saliva: menstruação e desejo.

Como uma igual, ela contesta a posição missionária: no amor, ela também quer ficar por cima. Adão rejeita a idéia, senhor que é da Criação. Lilith, raivosa, foge para o Mar Vermelho e se une aos demônios.

Sem companheira, Adão vaga pelo Éden, conhecendo outros animais… mas nenhum o satisfaz.

Eva então é forjada a partir de uma costela retirada de Adão durante o sono induzido pelo Criador. Mas esta história já foi contada milhares de vezes.

Quem é Lilith, afinal? Várias formas ela toma, ao longo da história do imaginário: além da primeira mulher de Adão (a que mais aprecio – nem precisava dizer), mãe dos demônios, devoradora de crianças.

Como ela se tornou a primeira de Adão? Lendas, a tradição oral dos rabinos, tem a ver com histórias que a Bíblia herdou dos mesopotâmicos e sumérios: veja as referências deixadas no final deste post.

Alguns autores fazem algumas interpretações do Gênesis, de acordo com suas crenças e com o nível de alcalóide em seus hemogramas:

  • et creavit Deus hominem ad imaginem suam ad imaginem Dei creavit illum masculum et feminam creavit” (Genesis, I, 27). Na última frase, “… macho e fêmea o Criou”, Adão era hermafrodita ou há duas pessoas criadas? Não era Eva ainda, esta surge no capítulo seguinte: “et aedificavit Dominus Deus costam quam tulerat de Adam in mulierem et adduxit eam ad Adam” (Genesis, II, 22) [e da costela que o senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao homem].
  • inmisit ergo Dominus Deus soporem in Adam cumque obdormisset tulit unam de costis eius et replevit carnem pro ea” (Genesis, II, 21). Deus mergulhou Adão em um sono profundo e dele uma costela retirou: talvez aí ele tenha, na verdade, sonhado com Lilith, uma imagem onírica, distorcida pelos desejos e surge Eva, a realidade (bastante instigante, aliás).
  • dixitque Adam hoc nunc os ex ossibus meis et caro de carne mea haec vocabitur virago quoniam de viro sumpta est“(Genesis, II, 23). Adão comenta que finalmente “eis alguém que é osso dos meus ossos e carne da minha carne”, como quem já havia encontrado outra que não fêz tanto sucesso ou como se tivesse procurado várias companhias e ninguém acabou podendo ser chamado de seu …

Lilith e Eva são instâncias de um mesmo arquétipo. Complexidades, ambigüidades e riquezas que há na personalidade de uma mulher: enquanto o macho homem tem pouco a ser analisado (só há Adão), Eva é a família, o amor que leva à união, a mãe; Lilith é a tentação, o desejo, o sonho, a atração. Eva e Lilith são a mesma.

Referências

http://en.wikipedia.org/wiki/Lilith

http://ccat.sas.upenn.edu/~humm/Topics/Lilith/