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Reproduções

As obras de arte plástica são únicas, não podem existir mais que um exemplar: não há duas giocondas, nem dois davids, há apenas uma capela Sistina, qualquer outra moça com brinco de pérola de Vermeer fora do museu Mauritshuis não é a própria. Há as gravuras, mas elas só funcionam porque a série é única e todas são iguais: caso uma tenha um matiz alterado, toda a série é jogada fora.

Contudo, em tempos de graphic novels e fotografias, na arte visual passa a valer o conceito de reprodutibilidade apresentado por Walter Benjamim: por mais que um original de Eisner ou de Barks atinja valores absurdos, a força dos seus trabalhos está no acesso a que muitos podem ter às suas histórias.

Novamente citando Benjamin, as obras de arte ditas clássicas vêm providas de uma aura, há um culto envolvido em torno delas. Provavelmente os originais de Eisner e Barks adquiriram esta aura, mas não era a intenção inicial dos autores fazerem uma obra única: os desenhos faziam parte de um processo de produção.

Contudo, a tal aura ainda permanece no trabalho reproduzido em massa: o processo de produção só se iniciou a partir de um original, um filme com o termo Kane só pode ser a obra de Orson Welles. Ninguém aceita comprar um DVD com o título “Kagemusha” se não for o de Kurosawa.

Em ciências, contudo, a reprodutibilidade é necessária. As ciências exatas e biológicas  possuem como um de seus pontos de apoio a comprovação experimental de uma teoria e a sua reprodutibilidade. Um grupo de pesquisas realiza uma experiência e esta precisa ser reprodutível em quaisquer outros laboratórios que possua as mesmas condições de trabalho e ambiente. A água pura ferve a 100 graus Celsius em condições normais de pressão e temperatura em qualquer ponto do planeta. A luz percorre a velocidade aproximada de 3 X 108 m/s no vácuo. O spin do elétron é 1/2, medido aqui ou em Urano.

Bandeiras paulistas

Luiz Gê, grande autor de quadrinhos, criou há 30 anos (!) uma das mais paulistanas histórias já desenhadas por estas terras.

Madrugada em Sampa, um casal aguarda um semáforo abrir. Quando a paciência se esgota, o rapaz resolve avançar e … o guia do monumento das bandeiras do Ibirapuera está a sua frente, braço erguido, pedindo para que o motorista aguarde mais um pouco, pois todo o monumento está passando pela transversal, incluindo o barco. O casal, atônito, quer sair do lugar o quanto antes, mas é atropelado pelo Borba Gato da av. Santo Amaro.

Os monumentos do Ibirapuera e do Borba são bastante estilizados, cada qual a seu modo. O do Brecheret é sensual, as formas emergem da matéria única e se distinguem uma da outra, cavalos, barcos, cordas, humanos, formas e origens orgânicas: cordas de cânhamo, barco de tronco de árvore. O de Júlio Guerra é um bandeirante de vários materiais, pedra, aço e ladrilho de mármore, de linhas retas. Tudo nele parece que foi montado por partes, seu bacamarte, suas botas, sua casaca, seu olhar duro, seu jeitão de transformer.

Monumentos têm o propósito de servirem a alguma exaltação, perpetuam em suas formas algum grande gesto, alguma pose expressiva, uma alegoria histórica, um símbolo: a estátua eqüestre do Caxias, a escultura de Tomie na 23 de Maio, a de Fernão Dias (por acaso, sogro do Borba Gato) no Museu Paulista, todos estes e muitos outros, incluindo a obra das Bandeiras de Brecheret, possuem algo épico, heróico, de exaltação mesmo.

E o Borba? Exalta o que? O próprio Manoel de Borba Gato, marido de Maria Leite, esta filha de Dias Paes Leme? A estátua parece fugir da função de enaltecer algo ou alguém. Não é pose para a posteridade, algum gesto nobre, olhar de orgulho. Simplesmente está ali, no meio da praça, poderia ser qualquer bandeirante, qualquer habitante do século XVII. Seria um anônimo, como são as figuras do Brecheret. Contudo, estes são anônimos para atingirem a abstração, para serem uma representação de um momento histórico, independente das polêmicas que há. O Borba tem aparência de anônimo mas tem um rótulo, o de ser a representação do… Borba.

Não cabe o adjetivo “feio” e nem “tosco”, isto é previsível demais: o melhor para o “Borba” é a palavra “intrigante”. O que o autor da obra imaginou estar fazendo? Em sua presença, há um certo torpor que nos invade.

A escultura do Borba deixou de ser a homenagem ao Manoel Borba Gato para ser o “Borba Gato”, aquela exaltação (sim, ele enaltece algo) ao kitsch, ao pesadelo estético, à robustez e ao exagero. O “Borba” nada tem a ver com a figura histórica do Borba.

O rock que conheci (0)

“Rock se toca com dois acordes: se houver três, vira jazz”, “um acorde: som de rave, bate-estaca”: deve haver algum fundo de verdade nestas jocosidades.

Quando era garoto, jovem imberbe, ouvia a rádio Difusora AM de Sampa, pois não havia outra que tocava rock. Ao menos, era o que eu tinha conhecimento, vivendo no subúrbio do subúrbio, em Osasco, Grande São Paulo, década de 60 e 70.

Sabia de Beatles? Já estavam separados quando de fato conheci a música deles. Conhecia os Stones? Sim, eu os ouvia e não sabia muito bem quem exatamente eles eram. Só vim a conhecê-los melhor quando entrei no segundo grau, quando comprei o “It’s only rock and roll” (but I like it) e depois fui atrás dos outros discos (de vinil, pois é). The Who? Sim, gostava bastante, mas “Quem” eram, só depois associei aquele “tóquin abaut mai jenereichion” com o “My Generation” que ouvi em um CD, bem mais tarde. Creedence Clearwater Revival? Hey Tonight, aquela outra perguntando se você viu a chuva …
Pink Floyd, Yes, Lou Reed, David “canivete” Bowie: dizem que aquele olho dele, de pupila dilatada, foi resultado de uma briga em sua adolescência por causa de uma garota. Teria ele sido ferido com uma faca Bowie por causa de uma chinesa calçando sapatos vermelhos? Cenas de um “Rock Dreams”. Este livro existe, melhor, existiu, edição esgotada, onde o ilustrador, Guy Peellaert, desenhou diversos astros do rock em cenas estranhas: uma santa ceia com o Elvis Pelvis Presley como o Salvador, pessoal do rockabilly como apóstolos e Tom Jones de Judas. Sabe a capa do “It’s Only Rock and Roll” que mencionei acima? O ilustrador é o próprio.

It's only rock' n roll

Cheguei a ver este livro uma vez, num sebo em Gainesville, uma cidade do Estado da Flórida. Mas o estado era lastimável. O dono era o típico hippie velho: cabelos loiros compridos, barba cultivada por longos anos, roupas largas. Acabei levando um quadrinho do Crumb: Mr. Natural. A barba deste é a mesma do dono do sebo.

Mr. Natural