Justa

Sra. Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa

No filme “Casablanca”, a orquestra do Rick’s entoa a Marseillese, em resposta à cantoria nazista. Uma peça de resistência. Lembro-me de ter aprendido o hino francês na  década de 1970, com a professora de português Laura Vivona, no curso de segundo grau noturno do colégio Ceneart . Especificamente, eram aulas sobre literatura brasileira, com incursões nas culturas portuguesa e francesa, notórias influências de nossos escritores e escritoras durante muito tempo.
Aquela noite na escola foi memorável: era a primeira aula e, então, de uma classe lá do fundo do corredor, o hino francês irrompeu pelas paredes da escola. Espanto, risos, enfim. Segunda aula: novamente ouve-se a exortação para que os cidadãos franceses avancem contra a tirania, desta vez de uma outra classe. E assim foi noite adentro até que chegou a vez da minha classe de troar o “alosanfan”.
Dona Laura ia descrevendo e discorrendo sobre os romancistas, contistas, poetas e cronistas; seguia a cronologia e fomos passando pelos gongoristas, os inconfidentes, simbolistas, parnasianos, românticos, modernistas e concretistas.

Em uma das aulas, a professora descreveu um romance inusitado, com um linguajar peculiar e na forma de monólogo. Eu acabara de ser apresentado ao G. Rosa e o seu “Grande Sertão: Veredas”, a história do Riobaldo Tatarana e Reinaldo ou Diadorim.

Curioso, comprei o livro e gostei do que li. Há uma dedicatória carinhosa feita pelo G. Rosa à sua companheira:

"A
Aracy, minha mulher, Ara
pertence este livro."

Em 28 de fevereiro de 2011, Sra. Aracy de Carvalho  faleceu aos 102 anos. Meses depois, surgiu um livro, “Justa”, de Mônica Schpun, contando sobre a vida de Aracy, particularmente na época em que ela trabalhou no consulado brasileiro em Hamburgo, na década de 1930.

Funcionária responsável pelos passaportes, neste período conheceu então seu futuro marido, Joâo Guimarães Rosa, recém-nomeado consul adjunto.

O nazismo já havia decolado e a perseguição aos judeus se iniciou. Juntamente com a Sra. Maria Margarethe Levy, D. Aracy montou uma rota de solidariedade de apoio aos judeus para que estes conseguissem escapar de Hitler e fugirem para o Brasil. Duplo risco: na época, o governo de Getúlio Vargas nutria simpatias pelo regime nazista.

“Justa entre as nações” foi o título recebido pela Ara de G.Rosa por esta ação humanitária por parte do governo de Israel em 1982.

3 momentos

photo by dan

Certa vez, um jovem samurai procurou Miyamoto Musashi, mestre do manuseio das 2 espadas e lhe pediu para que o ensinasse as artes de um bom espadachim.

- Sim, serei teu mestre. Primeiro, irás buscar água no riacho atrás daquele morro para beber, tomar banho, cozinhar o arroz e regar a horta.

Durante 2 anos, o jovem samurai foi buscar água 5, 6, até 7 vezes por dia para aquelas tarefas cotidianas.

Um dia, indagou ao mestre:

- Sensei, perdoai a minha ousadia, mas eu não deveria ir para uma nova etapa?
- Tens razão. Vamos ao dojo.

Havia um tatami preenchido com cascas de arroz no centro. As paredes estavam enfeitadas com exercícios de caligrafia.

- Andarás em torno do tatami, bem na beirada, pé ante pé, o dedão de um encostado no calcanhar do outro. Vinte e cinco voltas, depois mais vinte e cinco carregando os baldes cheios d’água de manhã. À tarde repetirás o que praticaste, mas no outro sentido.

Assim fêz o jovem aprendiz durante um ano.

O mestre, após este treino, ordenou:

- Venha comigo.

Seguiram uma longa trilha que os levaram à beira de um profundo rio, onde havia apenas um tronco caído para atravessá-lo.

- Meu caro, terás que caminhar sobre ele para completar teu treino.

Um frio percorreu a espinha do jovem e o fêz recuar.

Ao longe ouviu-se o som de uma bengala vindo da estrada. Um cego seguia a trilha e avançou pela ponte, guiado pelo seu tatear com a bengala.

O jovem samurai comentou:

- Ah, se ele consegue, por que não eu?

Assim o fêz.
- O cego, diante da sua condição, fortaleceu seu espírito e superou suas dificuldades.
- Queres dizer, mestre, que preciso estar cego para poder conseguir me superar?
- Cego já estavas, de algum jeito, pois ao teu foco não vislumbravas. Teus medos afloraram, é natural, faz parte da prudência. Mas não os deixe paralisar-te. Vê-te: equilíbrio e força tu os tens pelos baldes que carregastes. Isto é tai.  Wasa é a técnica: andar em volta do tatami ensinou-te como atravessar o rio. Por fim, passaste a enxergar com os olhos da mente, a abstrair as distrações e as ilusões e agiste: isto é o shin.


Shin, wasa, tai: em harmonia, de acordo com as estações.

(Baseado nos escritos de Taisen Deshimaru – “The Zen Way to the Martial Arts”)

Koto

Minha avó materna tocava koto. Nunca a vi tocá-lo, soube desta habilidade pela minha mãe. Já havia notado que minha batian conhecia música, pois a via batucar as teclas de um pianinho de brinquedo, ouvir a nota e compilar em um papel uma canção infantil japonesa.
Ouvi dizer que são precisos alguns anos para secar a madeira a ser utilizada para fabricar o instrumento. Corpo, tai.
São treze cordas normalmente: parece uma harpa deitada. Desconheço a técnica (wasa), mas parece ser pouco trivial.
Contudo, o timbre, as canções fazem do koto um dos responsáveis pela sonoridade oriental, o espírito da música, shin.

Shin, wasa, tai. Mente/espírito, técnica, corpo.

ouvir é uma aventura individual?

Nesta era do MP3, Ipod e fones de mil tipos, é. No metrô e no ônibus, nas ruas e repartições, mesmo dentro de casa. Os restaurantes contratam músicos ou colocam uma trilha sonora, mas a disputa com as conversas das mesas é árdua.

Nem sempre foi assim: ouvir era uma atividade coletiva, havia os saraus, audição de piano. Tudo bem, tudo isto ainda existe, há os concertos e espetáculos, mas predominam as gravações.

Shows de rock podem até ser experiências coletivas, mas o visual importa, não é mesmo? O som nem sempre é tão nítido.

Lembro-me que trancava a porta dos quartos para ouvir meus discos de vinil, já que meus pais não apreciavam meu gosto musical. Isto não é de estranhar. Um dia, consegui comprar um fone de ouvido decente. Foi a festa: voltava do trabalho (é, trabalhava à noite dando aula), adrenalina a mil, mas dava para ouvir rock à meia-noite sem perturbar ninguém.

Surgiu o walkman: fita K7 com 60 minutos de música para ouvir andando! OK, havia também aqueles aparelhos com duas caixas grudadas que o sujeito carregava nos ombros, para todo mundo saber e apreciar o que o tal gostava, se bem que alguns funks eram bem … chatos. Preferia ser discreto.

Mas quebrava muito o tal do walkman. E era caro.

Veio o CD. Veio o CD player portátil. Anos depois, o formato MP3 alterou todo o business musical. E a Apple explodiu com o Ipod. O resto todo mundo sabe.

A aventura continua.

Bullet time

Matrix trouxe à baila um efeito especial denominado bullet time, onde uma imagem é congelada e o olho da câmera roda em torno de um ou mais personagens, feitos estátuas em uma exposição.

O efeito é obtido por meio de um conjunto de câmeras enfileiradas que obtém as imagens ao mesmo tempo e, com isto, se consegue montar uma sequência cinematográfica.

Assim, o efeito obtido, antes de se adicionar o cenário “realista”, é mostrado no vídeo abaixo.

O truque das câmeras enfileiradas, contudo, remonta ao século XIX, com o fotógrafo Eadweard J. Muybridge (9/abril/1830 – 8/maio/1904).

Ele obteve diversas sequências como as imagens de um cavalo a galope. Com isto, foi possível perceber que o cavalo, na maior parte das vêzes, se equilibra em apenas uma das patas.

O que é curioso, contudo, é que no filme Matrix, a intenção do efeito visual é captar as imagens estáticas sob diversos ângulos e colocá-las de forma cinética, ao passo que Muybridge procurou decompor uma ação em um conjunto de imagens estáticas.

Reproduções

As obras de arte plástica são únicas, não podem existir mais que um exemplar: não há duas giocondas, nem dois davids, há apenas uma capela Sistina, qualquer outra moça com brinco de pérola de Vermeer fora do museu Mauritshuis não é a própria. Há as gravuras, mas elas só funcionam porque a série é única e todas são iguais: caso uma tenha um matiz alterado, toda a série é jogada fora.

Contudo, em tempos de graphic novels e fotografias, na arte visual passa a valer o conceito de reprodutibilidade apresentado por Walter Benjamim: por mais que um original de Eisner ou de Barks atinja valores absurdos, a força dos seus trabalhos está no acesso a que muitos podem ter às suas histórias.

Novamente citando Benjamin, as obras de arte ditas clássicas vêm providas de uma aura, há um culto envolvido em torno delas. Provavelmente os originais de Eisner e Barks adquiriram esta aura, mas não era a intenção inicial dos autores fazerem uma obra única: os desenhos faziam parte de um processo de produção.

Contudo, a tal aura ainda permanece no trabalho reproduzido em massa: o processo de produção só se iniciou a partir de um original, um filme com o termo Kane só pode ser a obra de Orson Welles. Ninguém aceita comprar um DVD com o título “Kagemusha” se não for o de Kurosawa.

Em ciências, contudo, a reprodutibilidade é necessária. As ciências exatas e biológicas  possuem como um de seus pontos de apoio a comprovação experimental de uma teoria e a sua reprodutibilidade. Um grupo de pesquisas realiza uma experiência e esta precisa ser reprodutível em quaisquer outros laboratórios que possua as mesmas condições de trabalho e ambiente. A água pura ferve a 100 graus Celsius em condições normais de pressão e temperatura em qualquer ponto do planeta. A luz percorre a velocidade aproximada de 3 X 108 m/s no vácuo. O spin do elétron é 1/2, medido aqui ou em Urano.

versões (1): ruby tuesday

The Rolling Stones gravou esta música em 1966 e a lançou em 1967. O vídeo abaixo foi feito em 1988, em um show no Texas.

The Corrs também apresentou esta música, com o stone Ron Wood na guitarra.

Para quem quiser a letra:

She would never say where she came from
Yesterday dont matter if its gone
While the sun is bright
Or in the darkest night
No one knows
She comes and goes

Goodbye, ruby tuesday
Who could hang a name on you?
When you change with every new day
Still Im gonna miss you…

Dont question why she needs to be so free
Shell tell you its the only way to be
She just cant be chained
To a life where nothings gained
And nothings lost
At such a cost

Theres no time to lose, I heard her say
Catch your dreams before they slip away
Dying all the time
Lose your dreams
And you will lose your mind.
Aint life unkind?

Goodbye, ruby tuesday
Who could hang a name on you?
When you change with every new day
Still Im gonna miss you…

quantum (1)

A física no final do século XIX estava baseada na mecânica de Sir Isaac Newton e no eletromagnetismo de James Maxwell. Ambas as teorias apresentavam inúmeras provas experimentais e possuíam elegantes formulações.

O fenômeno do calor e, por extensão, a termodinâmica, eram considerados uma extensão da mecânica. Em 1845, James Prescott Joule havia demonstrado isto com as suas experiências de equivalência mecânica do calor. Mas quando se aquece em demasia uma barra de ferro, ela começa a emitir luz, um fenômeno eletromagnético. Pela cor que a barra emite, é possível determinar a sua temperatura.

A formulação na época que relacionava a cor (ou sua frequência eletromagnética) e a temperatura era falha: para valores de temperatura altas, o resultado seria uma emissão infinita de energia, o que obviamente não ocorre. Caso contrário, estaríamos todos mortos por radiação diante de uma lareira, por exemplo. Esta previsão, este modelo que funcionava para baixas temperaturas e baixas frequencias foi desenvolvida por Rayleigh e Jeans e sua expressão matemática se encontra abaixo:

fórmula de Rayleigh-Jeans

fórmula de Rayleigh-Jeans

Note que, se o valor da temperatura T aumentar, a densidade de energia aumentará em demasia e isto não está de acordo com o que se observa. Assim, havia algo de estranho.

Nascido em 1858 na cidade de Kiel, Max Planck era um físico alemão brilhante. Aos 21 anos, obteve seu doutorado na Universidade de Munique com o tema “Sobre a Segunda Lei da Teoria Mecânica do Calor”.

Retrato de Max Planck

Retrato de Max Planck

Doktor Planck se interessou pelo problema da radiação do corpo negro, como é chamado este fenômeno de emissão (e absorção) de radiação pela matéria.

Em 1900, na revista científica  “Annalen Der Physik”, surgiu o artigo de Planck intitulado Zur Theorie der Gesetzes der Energieverteilung im Normal-Spektrum (Sobre a Teoria da Lei de Distribuição de Energia no Espectro Contínuo) e também uma nova constante física, denotada por h:

h = 6.626068 × 10-34 m2 kg / s

O que significa este valor? Hoje ela é denominada constante de Planck. Quem conhece a história da física sabe o quanto Doktor Planck relutou em lançar este artigo e esta constante. Mas foi equivalente à idéia de Copérnico em retirar a Terra do centro das órbitas planetárias e colocar o sol. Revolucionário.

Nos próximos posts comentaremos as deduções de Planck e a sua formulação para o problema.

Doug Engelbart: quem é?

Há um livro traduzido para o português chamado “Cultura da Interface”, escrito por Steven Johnson, da Jorge Zahar Editor, que trata a respeito da interação humano-computador. Ele traz um dado interessante: quando surgiu o “mouse”?

Resposta: em 1968, em uma demonstração feita por Douglas Engelbart, um engenheiro da Stanford Research Institute. Imagine: 1968 é o tal do ano que ainda não terminou, como alguns afirmam. Além de hippies e movimentos estudantis e AI-5, 68 trouxe o mouse.

Maiores referências estão em

http://www.dougengelbart.org/pubs/augment-3954.html#Footnote

e há um vídeo longo (mais de 70 minutos e em inglês) apresentando a demonstração do Engelbart:

Em 1968, as pessoas usavam cartão perfurado … quem por aí se lembra disto?

versões (0): Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band

Capa

Os Beatles fizeram esta música na década de 60 e a gravadora lançou um vídeo bem interessante com base na capa original do disco acima.

Há uma versão feita pelo Jimi Hendrix, que foi elogiada pelo Paul e pelo George.

Cássia Eller também fêz a sua versão do Sargento Pimenta: o vídeo apresenta uma ligeira dessincronia entre voz e imagem, mas dá para curtir.

Não se pode esquecer da versão apresentada no desenho animado “Yellow Submarine”.

Quem quiser a letra, aí está:

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Lennon/McCartney)

It was twenty years ago today,
Sgt. Pepper taught the band to play
They’ve been going in and out of style
But they’re guaranteed to raise a smile.
So may I introduce to you
The act you’ve known for all these years,
Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.
We’re Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band,
We hope you will enjoy the show,
We’re Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band,
Sit back and let the evening go.
Sgt. Pepper’s lonely, Sgt. Pepper’s lonely,
Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.
It’s wonderful to be here,
It’s certainly a thrill.
You’re such a lovely audience,
We’d like to take you home with us,
We’d love to take you home.
I don’t really want to stop the show,
But I thought that you might like to know,
That the singer’s going to sing a song,
And he wants you all to sing along.
So let me introduce to you
The one and only Billy Shears
And Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

quantum (0)

Ernesto Sábato, escritor e físico argentino, comentou em um livro seu que, quando a  mecânica quântica é explicada de forma rigorosa, ela se apresenta obscura e, quando se mostra compreensível a todos, então a explicação deve ser falsa.

Lembro-me desta afirmação quando vejo reportagens ou comentários de livros de auto-ajuda que usam a teoria quântica para justificarem suas idéias. Há uma confusão de conceitos e interpretações nestas obras difíceis de desvencilhar.

O item da mecânica quântica que fascina muitos é o Princípio da Incerteza ou Princípio da Indeterminação de Heisenberg. Como já mencionou Rebecca Goldstein em seu livro “Incompletude”, o século XX viu surgirem teorias com nomes que, para um leigo, sugerem uma certa imprecisão: relatividade de Einstein, incompletude de Gödel, incerteza de Heisenberg. Contudo, são teorias bastante formais, cuja compreensão correta só ocorre mediante expressões matemáticas e em conjunto com a experiência, no caso da física.

A teoria quântica se refere ao grande problema que até hoje continua em questão que é   entender do que é feita a matéria. No século XIX, havia hipóteses sobre a existência de átomos e sua constituição, mas os experimentos não confirmavam os trabalhos teóricos da época. Estes trabalhos tinham como bases a mecânica newtoniana e o eletromagnetismo de Maxwell, teorias bastante poderosas, mas estavam em seus limites, como percebeu-se anos depois.

Oficialmente, a mecânica quântica surgiu com o artigo do Dr. Max Planck na publicação científica Annalen Der Physik a respeito da relação entre radiação emitida por um certo material e a sua temperatura em 1900:  Zur Theorie der Gesetzes der Energieverteilung im Normal-Spektrum (Sobre a Teoria da Lei de Distribuição de Energia no Espectro Contínuo, em uma tradução literal).

No próximo post será comentado este trabalho do Planck, seus sentimentos a respeito do que escreveu e um pouco da sua vida.

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